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Morre Marcelly Malta, pioneira na defesa de travestis no RS

Por Notícias 9 · · 3 min de leitura
Morre Marcelly Malta, pioneira na defesa de travestis no RS
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Morre Marcelly Malta, pioneira na defesa de travestis no RS

Várias organizações LGBTQIA+ lamentaram neste sábado a morte e destacaram o pioneirismo da travesti.

Nascida em Mato Leitão, no interior do Rio Grande do Sul, Marcelly Malta Lisboa teve a ajuda de freiras franciscanas para estudar e trabalhar como enfermeira na Santa Casa de Porto Alegre, para onde foi na adolescência. Era um sonho de infância, inspirado pelo contato com uma tia que tinha a mesma profissão e estava sempre de branco.

Além dos plantões hospitalares, Marcelly foi prostituta nas ruas e boates da capital gaúcha, onde conheceu travestis glamourosas e assistiu shows espetaculares, mas também enfrentou a violência e a discriminação.

Foi o início da trajetória da ativista pioneira do movimento trans e travesti no Rio Grande do Sul, morta neste sábado (4), aos 75 anos, em Porto Alegre. A morte foi informada pela ONG Igualdade - Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul, que ela fundou no final da década de 1990.

"Marcelly foi uma mulher travesti de coragem, força e dignidade. Uma guerreira incansável na luta pelos direitos da população trans e travesti do Brasil, que deixou sua marca por meio da resistência, do acolhimento e da defesa de uma sociedade mais justa e igualitária", diz a nota divulgada pela ong.

Em 2011, aos 60 anos, quando presidia o Conselho Municipal de Direitos Humanos da Prefeitura de Porto Alegre, ela conseguiu juridicamente o direito de retificar o nome no registro civil, uma conquista que abriu portas para outras pessoas trans do país inteiro fazerem o mesmo.

Sete anos depois, em 2018, o STF (Supremo Tribunal Federal) reconheceu o direito de transexuais adequarem sua identidade de gênero e nome sem a necessidade de cirurgia de redesignação sexual.

"Parece que nasci novamente. Fico muito orgulhosa de poder saber que daqui para frente outras travestis poderão evitar constrangimentos e humilhações e conseguirão o mesmo direito de alterar seus prenomes nas identidades", ela disse na época.

Na trajetória de Marcelly há passagens pela Europa, nos anos 1990, como trabalhadora sexual. "Não foi o estado que me deu o que tenho, foi a prostituição", ela afirmou há um ano ao TravaTalk Podcast. Na mesma entrevista, relatou atos de violência em prisões na capital gaúcha, onde foi encarcerada durante a ditadura militar sob a acusação de vadiagem.

De volta ao Brasil após o período europeu, a profissional de saúde tornou-se influente entre as travestis em Porto Alegre por ter acesso a informações de prevenção e tratamento contra a Aids. A partir da atuação no Gapa (Grupo de Apoio à Prevenção da Aids), construiu a liderança histórica no movimento.

Várias organizações LGBTQIA+ lamentaram neste sábado a morte e destacaram o pioneirismo da travesti. "Marcelly abriu caminhos, enfrentou violências, ajudou a organizar uma geração de ativistas e fez da própria vida um instrumento de afirmação, memória e luta", declarou, em nota, a Parada Livre de Porto Alegre.

Segundo Toni Reis, diretor da Aliança Nacional LGBTI, Marcelly seguia atuando ao defender que envelhecer com dignidade é um direito de todas as pessoas. "Sua existência valeu a pena. Valeu cada viagem, cada palestra, cada diálogo, cada formação com profissionais da segurança pública, cada palavra dita em defesa da dignidade humana", ele disse.

A deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG) contou que a ativista teve uma reunião recente com sua equipe para desenvolver ações pela empregabilidade trans. "Sobrevivente da ditadura, uma das pioneiras na militância contra o hiv/aids e dos movimentos trans no Brasil, Marcelly deixa um legado que será lembrado por décadas".

Marcelly chegou a dar aulas de formação para agentes e delegados da Polícia Civil, a convite do governo estadual. Na entrevista ao podcast, ela aconselhou a população travesti e trans mais jovem a estudar e ficou emocionada ao contar sobre as homenagens recebidas durante a vida.

O velório será neste domingo (5), das 7h às 12h, na Casa dos Conselhos de Porto Alegre.

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